domingo, 3 de abril de 2016

COMO DERROTAR UMA QUADRILHA GOLPISTA


Por Bepe Damasco, em seu blog:                                  
1) A saída do PMDB do governo está longe de ser a tragédia pregada pela mídia e, infelizmente, absorvida por muitos lutadores contra o golpe. Primeiro porque há muito o PMDB não entrega a mercadoria combinada, já que o governo vem contando com cerca de 30 votos dos mais de 60 dos integrantes da bancada do partido. E depois porque até as paredes do Congresso e do Planalto sabem que uma dissidência significativa permanecerá no governo.
2) O governo está diante de uma oportunidade de ouro para solidificar uma nova base de apoio congressual. O PMDB deixa para trás ministérios estratégicos, além de cerca de 150 cargos de ponta. A saída é negociar com inteligência e habilidade como se estivesse diante de um tabuleiro de xadrez. O objetivo é fidelizar o maior número possível de parlamentares dos partidos pequenos e médios da base que até agora ocupavam posições subalternas na Esplanada dos Ministérios, tais como PP, PR, PROS, PTB, PDT, PSD e PRB.
3) Está mais do que claro que um hipotético governo golpista chefiado por um traidor desprezível como Temer seria formado pelo consórcio PMDB-PSDB. Nele, restariam apenas migalhas aos partidos pequenos e médios. Trocando em miúdos, em termos de ocupação de espaços, esses partidos têm mais a ganhar cerrando fileiras com Dilma do que integrando um governo manchado pelo golpe de Estado.
4) A luta contra o golpe se transformou em campanha cívica. Todos os dias manifestos, atos, debates, abaixo-assinados e todo tipo de mobilização reúne professores, estudantes, juristas, intelectuais, artistas das letras, do cinema e do teatro, jovens, mulheres, negros, homossexuais, reitores de universidades, sem-terra, sem-teto, galera do hip-hop, sambistas, etc. Já é possível afirmar que a sociedade civil está contra o golpe. Dar cada vez mais visibilidade a esses movimentos é essencial para emparedar os golpistas. Pressionar os deputados pela internet e no corpo a corpo nos aeroportos também conta muito.
5) A Frente Brasil Popular, agora unida à Frente Povo Sem Medo, tem organizado vitoriosas manifestações, como as ocorridas em todo o país no dia 18 de março, quando quase um milhão e meio de pessoas protestaram contra o golpe e em defesa da democracia. Contudo, é imprescindível estar nas ruas também no período compreendido entre os grandes atos, com panfletagens e atividades lúdicas.
6) É preciso intensificar a denúncia da plataforma de governo dos golpistas. O povo tem que saber que eles não fazem nenhuma questão de esconder que cortarão direitos sociais e previdenciários, colocarão um ponto final na política de valorização do salário mínimo e reduzirão drasticamente, se não extinguirem, gastos com o Minha Casa, Minha Vida, Prouni, Bolsa Família, Pronatec, Mais Médicos, etc, além de privatizarem a Petrobras, Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.
7) É um erro grave se pautar, reproduzir nas redes sociais, ou disseminar por qualquer outro meio, boatos que não mereçam crédito e notícias do PIG. Em tempos de guerra, informação é arma poderosa. Dar uma olhada ou outra nos sites do monopólio da mídia, para acompanhar sua trama golpista, é válido. Mas tomar como verdade suas patranhas é de uma ingenuidade imperdoável. Exemplo : em seu artigo na Folha de São Paulo, a militante tucana travestida de jornalista Eliane Catanhêde diz que Lula e Temer conversaram em São Paulo sobre o dia seguinte ao golpe. E, por incrível que pareça, já tem gente nossa repercutindo essa mentira, feita sob medida para nos desanimar.
8) Mais do que nunca cabeça fria e nervos de aço são requisitos fundamentais para enfrentar a tempestade. O desespero que observo por parte de alguns nas redes sociais e grupos de whatsApp não leva a nada e só ajuda o inimigo.
9) O militante antigolpe deve estar preparado para uma guerra prolongada. Entender as nuances e a tramitação do processo de impeachment é fundamental. Primeiro a comissão processante vota o relatório. Se for aprovado o impeachment, a matéria vai para o plenário da Câmara, onde os golpistas precisam de 342 votos. Por fim, em sessão presidida pelo presidente do STF, caberá ao Senado a decisão final. Também entre os senadores, a aprovação do impeachment requer dois terços dos votos. Vale lembrar que o governo ainda poderá recorrer ao Supremo, já que a ausência da caracterização de crime de responsabilidade contra Dilma faz do processo uma aberração constitucional.

10) A mídia e os golpistas estão preocupados com o fato de a palavra golpe estar na boca de um número crescente de pessoas. Eles insistem no mantra de que o impeachment está previsto na Constituição. Mas a lei está do nosso lado. Todo militante deve trazer na ponta da língua a verdade : a Constituição só prevê a instalação de processos de impeachment contra presidentes da República quando estes cometem crimes de responsabilidade, o que não existe em relação à presidenta Dilma. Além de pedalada não ser crime, sendo comparado a um mero atraso no pagamento da fatura de um cartão de crédito, o Congresso Nacional não julgou a reprovação das contas pelo TCU. E mesmo se, contrariando o parecer do relator pela aprovação, o Congresso reprovasse as contas da presidenta, elas se referem ao mandato anterior (2010-2014). E a lei não permite perda de mandatos por questões relacionadas a mandatos anteriores.

Palavras


Há quem diga  que o tempo não passa – ponteiro é que anda!
Anda também nossos passos tão distantes...
Palavras sem contexto,
Risos sem bocas,
Saudades sem imagem.

Tento enxergar em mim a beleza sua...
Cabelos cortei. Brancos, em quedas
Como as lembranças que pesco em dia chuvoso e seco.

Foi parar onde nossa meninice de útero aconchegante?
Olhares de proteção celestial?

Estou tão só.

Eu, plantas, livros, café e
Uma vontade demente de lhe dizer ao pé de ouvido apenas...
Amo-te .


Marla (09/01/2006)

Gyn/Go

Altamiro Borges: O deslumbramento fotográfico de Moro

Altamiro Borges: O deslumbramento fotográfico de Moro: Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo : Circula com intensidade neste sábado nas redes sociais uma foto postada pela senho...

Dermeval Saviani: A crise política atual - uma grande farsa - Portal Vermelho

Dermeval Saviani: A crise política atual - uma grande farsa - Portal Vermelho: A crise que se abateu sobre o país tem sido justificada em nome do combate à corrupção e, por meio da insistente repetição dos diversos meios de comunicação, vem induzindo a população a acreditar que foi o PT que, ao chegar ao governo, institucionalizou a corrupção instalando uma verdadeira quadrilha empenhada na apropriação privada dos fundos públicos.

Pansera: Boa parte da bancada do PMDB é contra o impeachment - Portal Vermelho

Pansera: Boa parte da bancada do PMDB é contra o impeachment - Portal Vermelho: O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Celso Pansera, um dos seis ministros do PMDB que permanecem no governo após o anúncio da legenda de se desligar do governo federal, disse que não concorda com a decisão de seu partido.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

CORRUPÇÃO


O “trensalão tucano” vai atropelar Serra?





Por Altamiro Borges
A Justiça de São Paulo, que não é das mais isentas e ágeis, finalmente aceitou denúncia criminal contra o cartel de trens em São Paulo – também batizado de “trensalão tucano” – e transformou em réus cinco executivos da multinacional francesa Alstom e dois da espanhola CAF. Segundo o Ministério Público, eles teriam participado de fraudes em licitação de R$ 1,8 bilhão em 2009 e 2010, durante a gestão do hoje senador José Serra (PSDB) à frente do governo paulista. A decisão foi tomada pela juíza Rosane Cistina de Aguiar Almeida nesta segunda-feira (28).

A Folha informa que “um dos indicadores da fraude na licitação, segundo o promotor Marcelo Mendroni, foi o preço apresentado pela CAF, que concorreu sozinha e venceu a disputa. O preço ofertado tinha uma diferença de 0,0099% em relação ao valor de referência, o montante fixado pela Companhia Paulista de Transporte Metropolitano (CPTM) como o preço máximo que seria aceito. Outros indícios de fraude foram encontrados em e-mails trocados entre os executivos. Um deles, do então diretor da Alstom, Cesar Ponce de Leon, diz o seguinte a outros executivos da multinacional francesa em setembro de 2009: ‘Necessitamos saber para amanhã quais são as mudanças que estão acontecendo nos acordos’”.

Em outro e-mail, Ponce de Leon avisa aos executivos da Alstom. "Quanto ao convite aos 'boinas' lhe expliquei que não há nada combinado, que buscávamos dividir o capital e eliminar ao mesmo tempo um competidor". "Boina" era a forma como a CAF era chamada na Alstom, segundo o Ministério Público. Já em outra mensagem, diretores da Alstom relatam que pretendem juntar todos os concorrentes (CAF, Bombardier, Siemens, MGE, Mitsui e Tejofran) num “único grupo". Para o promotor Marcelo Mendroni, “as mensagens contêm provas de fraude e de acerto para evitar concorrência”.

O jornalão da famiglia Frias, que mantém relações carnais com José Serra, evita fazer qualquer menção crítica ao ex-governador de São Paulo. Mas é evidente que o “trensalão tucano” envolve importantes integrantes do seu governo. Afinal, não há corruptor sem corrupto – e vice-versa. Se depender do Judiciário paulista, sempre tão complacente, e da mídia chapa-branca, sempre de rabo preso, talvez o grão-tucano nem seja citado nas próximas denúncias criminais. Mas um dia esta história – como a da privataria tucana e da grana nos paraísos fiscais dos familiares de José Serra, tão bem descritos no livro de Palmério Dória – ainda será desvendada!

POESIA SUFI

RUMI

Tem mais poesia sob esse céu do que pensa nossa vã sapiência.  Sufismo é um ramo místico do Islã.  Rumi é um poeta, muçulmano devoto, professor, teólogo, pregador e jurista,  do século XIII, que viveu onde hoje é a Turquia. O amor desempenha papel fundamental  na visão de mundo sufista,  força que leva à unidade e não é dado às pieguices ocidentais. Aproxima as pessoas nas suas diferenças. Lendo   O Cânone Gráfico, descobri  esse sujeito. 

Uau! Nesse aglomerado que é o meu Eu interior,                                                                                    Quem sou eu?   
Escuta-me.                                  
Sei  que estou vagando, mas  
não começa encobrindo essa confusão.                                                                                            
Não diz o que devo fazer.                                                                                                                                                     
A todo  momento  fico impressionado com    
tua história. Ora ela é feliz e       
estou cantando. Ora ele é triste e                                                          
estou chorando. Ela se torna amarga e                    
eu me afasto.   
Mas então tu fazes uma pequena graça e de repente                                                                                 
sou todo luz.                                                                                                                                              Não é tão ruim                                                                                                                                           esse arranjo,                                                                                                                                               na verdade.                                                                         
                                                                                                                                                                                                                                                                                               

GLOBOSTA


Do blog Viomundo:

Os repórteres da Globo não circulavam entre a multidão.
Ou, se o fizeram, foi de forma disfarçada.
Havia cartazes variados: contra Aécio, Alckmin e o juiz Sérgio Moro.
Um único lembrava a morte de Vladimir Herzog pela ditadura militar, cuja missa foi celebrada na Catedral da Sé.
O tema mais presente na manifestação desta tarde/noite na praça da Sé, em São Paulo, foi a emissora da família Marinho.
O famoso refrão contra a Globo só foi menos ouvido que o “não vai ter golpe — e vai ter luta”.
Havia cartazes feitos à mão e impressos. Dezenas deles. Um orador se referiu à emissora como a “central do golpe”.
E, não é para menos.
A manipulação noticiosa continua acelerada.
Como o jornalista Leandro Fortes denunciou, hoje, em seu Facebook:
O Globo Esporte mostrou a imagem de três idiotas com nariz de palhaço que invadiram o treino do Palmeiras com uma faixa louvando Sérgio Moro para xingar a presidenta Dilma. Mas não mostrou a faixa levantada ontem, no Mané Garrincha, pelas torcidas do Flamengo e do Vasco contra o golpe e pela democracia no Brasil. Essa gente não pode vencer.


Estudos Avançados: Saviani analisa a educação como formadora da consciência social


Por Cezar Xavier
 

O capitalismo instaurou uma era de opacidade nas relações sociais, que torna inevitáveis os embates de lutas de classe. Este foi o rumo do raciocínio construído pelo conferencista Dermeval Saviani, ao encerrar o Seminário de Estudos Avançados do PCdoB, no dia 1º de fevereiro, em São Paulo. Conduzida para refletir sobre as eleições de 2014 e a consciência social brasileira, a conferência do pedagogo recorreu à filosofia e ao marxismo para o desvendamento ideológico dos sistemas econômicos, demonstrando a importância da educação crítica para formação da consciência social e a ação política.
Saviani explicou que refletiu muito antes de decidir pela abordagem escolhida para não “chover no molhado” ao discutir consciência social e ação política e ideológica. Ele abriu a conferência afirmando que é o ser social que determina a consciência, portanto, é necessário compreender a estrutura da sociedade para dimensionar as condições da consciência que o indivíduo tem de seu lugar no mundo.
O trabalhador não reconhece o produto do seu trabalho
Deste modo, numa afirmação própria do marxismo, Saviani afirma que a estrutura jurídica e política de uma sociedade é determinada pelas suas condições econômicas. A partir deste pressuposto, ele volta à desconstrução da estrutura do modo feudal de produção para compreender a condição capitalista da humanidade, surgida em contradição ao sistema que o antecedeu.
Do modo de produção feudal, formado por servos/artesãos e senhores, se elevou a estrutura jurídica e política (nobreza e clero) daquele regime econômico. O aumento da capacidade de produção de servos e artesãos gerou um excedente, para além das necessidades de subsistência, que passou a ser trocado nas cidades (burgos). Com o contraste do papel da burguesia sobre as relações estáticas do feudalismo, as relações entre servos/senhores e artesãos/mestres tornaram-se entraves para o avanço econômico, já que as mudanças do campo para a cidade, da troca para o comércio, da agricultura para a indústria, se tornavam cada vez mais prementes.
É deste modo que as convulsões burguesas “libertam” os servos e artesãos dos instrumentos de trabalho que pertenciam aos senhores feudais, e passam a vender sua força de trabalho aos burgueses. Foi uma transformação lenta que atravessou os séculos XV e XVII, com o surgimento do iluminismo e o livre exame do protestantismo. “Em 1848, o Manifesto Comunista celebra os avanços de cinco séculos de capitalismo”, salienta Saviani.
Embora tenha libertado a mão de obra da servidão ao senhor feudal, Saviani ressalta que a burguesia manteve privados os meios de produção, impedindo uma liberdade plena que o comunismo prometia com o fim da propriedade sobre os meios de produção. “Foi o início de uma nova era de revolução social, com a finalidade de libertar as forças produtivas dos meios privados concentrados nas mãos dos capitalistas”, diz o filósofo.
No capitalismo, embora o excedente seja sua razão de ser, ele é sempre um entrave econômico. Para resolver o impasse do excesso produtivo, o regime estimula a destruição da produção, seja por meio de catástrofes ambientais ou guerras. Saviani ironiza ao questionar se as manifestações políticas acompanhadas de vandalismo, que a tática black bloc justifica como anticapitalistas, na verdade não concorreriam para o avanço capitalista. “Todas as grandes guerras geraram surtos de grande desenvolvimento capitalista”, descreve ele.
A própria noção da “obsolescência programada” surge desta necessidade do capitalismo; ou seja, o produto industrial já é programado para se tornar obsoleto e ser substituído por um mais moderno, num prazo curto de tempo. “Você vai à assistência técnica, e o especialista diz que é mais barato comprar uma impressora nova do que consertar a velha”, diz ele, o mesmo servindo para inúmeros outros produtos eletrônicos de uso cotidiano.
Saviani cita o exemplo das lâmpadas, que nasceram com tecnologia para serem eternas. Isto pode ser perfeitamente comprovado com uma lâmpada dos bombeiros de Livermore, na Califórnia (EUA), que já funciona desde 1901. Segundo seu relato, em 1924, foi formado o cartel de lâmpadas para controlar a vida útil deste produto e, então, Thomas Edison cria a lâmpada com tempo determinado, fixado em mil horas de duração.
Este descarte contínuo da produção gera graves problemas ambientais e mantém as forças produtivas ocupadas com um excedente que só interessa ao capitalista. “Numa economia socializada, as forças produtivas estariam liberadas para satisfação de novas necessidades”, sugere Saviani. É o caso das pesquisas de cura de doenças, cujo resultado é sempre um remédio paliativo para prolongar a vida do paciente convivendo com a doença, em vez de curá-la.
A partir desta percepção utópica da economia, Saviani explica porque o capitalismo é a pré-história da humanidade. Neste regime em que o trabalhador está dissociado do produto de seu trabalho, ele faz a história sem saber que a faz. Num regime em que vigore o trabalho livre dos meios de produção privados, o proletariado faz a história sabendo que a faz. Neste raciocínio encontramos a chave, proposta pelo filósofo, para a reflexão sobre a consciência social.
A questão da relação do capitalismo com a natureza também foi tratada, revelando o modo como ela é vista neste sistema como um produto a serviço do homem. A subsistência nunca foi vista como um problema para natureza. Em 1876, Engels, parceiro de Marx nos textos revolucionários, já dizia que os animais transformam a natureza por viver nela, enquanto o homem a domina e a faz servi-lo, o que a leva a reagir conforme o abuso humano. “Os europeus não viam que eliminar florestas para agricultura criava os desertos atuais que avançam sobre os países que colonizaram”, cita Saviani.
Transparência e Opacidade
Todas essas contradições capitalistas propiciam o desenvolvimento da luta de classes. Segundo Saviani, a burguesia vê uma crise econômica, como a que vivemos atualmente, como um desarranjo e disfunção, que demanda reformas. “A classe dominada de trabalhadores  vê a crise como uma oportunidade para mudança na correlação de forças”, prescreve ele.
Parafraseando Lucien Goldman, o filósofo descreve os níveis de consciência como real (aquela do burguês), a possível (aquela do trabalhador alienado) e a máxima possível, que só pode ser adquirida pelo proletariado, que projeta um horizonte para a superação da ordem burguesa. “Os interesses da burguesia a impelem a manter a ordem capitalista, enquanto os interesses do proletariado os compelem à superação do sistema”, afirmou.
Engels já observava que a história desmentiu os revolucionários, ao revelar que o desenvolvimento capitalista estava muito aquém da necessidade para a supressão da produção capitalista.  “O alemão observou que o amadurecimento das condições objetivas para a revolução na Europa (um canto do mundo), se confrontava com a ascensão recente da burguesia no resto do planeta”, diz Saviani, ao sugerir que as condições para a revolução ainda estão por ser criadas.
Voltando as bases do Capital, Saviani recupera a lógica de que o proletário não é livre, pois é proprietário exclusivo de sua força de trabalho, enquanto o burguês é livre por ter a propriedade exclusiva dos meios de produção e da força de trabalho dos proletários. Por contrato, o capitalista é dono de tudo que o trabalhador é capaz de produzir em troca de um salário para consumir aquilo que ele mesmo produziu.
Do mesmo modo, Saviani recupera a lógica que define a perda da relação entre o trabalhador e seu produto. No capitalismo, é a troca que determina o consumo, ao contrário do feudalismo, em que a troca do excedente vinha depois do consumo para subsistência. No capitalismo, a troca precede o consumo. “Eu não recebo meu produto produzido; eu recebo um salário equivalente ao valor da minha força de trabalho e tenho que comprar o que produzi”, diz o filósofo, lembrando como nos primórdios do capitalismo, com trocas mais primárias, o homem já começa a se alienar da lógica que governa as relações econômicas.
É assim que a produção adquire um caráter fetichista: as mercadorias passam a ter vida própria e tornam-se misteriosas. Perdemos a percepção de que elas são produto das mãos humanas. O capitalismo inaugura a “opacidade” nas relações sociais. “No feudalismo, as relações são transparentes: o escravo é propriedade do senhor e o servo está submetido ao senhor. No capitalismo, a aparência de liberdade instala a escravização do trabalhador”, explica.
Surge a diferença entre aparência e essência, em que o capitalista é livre em aparência e essência, enquanto o proletário é livre apenas na aparência. O proletário que não trabalha, morre, ou vive na criminalidade. “É esta opacidade que deu origem aos embates da luta de classes”, afirma Saviani.
Educação, avanços e retrocessos liberais
O liberalismo burguês favoreceu a correlação de forças do proletariado. A conquista do sufrágio universal, leva os proletários a usar a luta parlamentar como ferramenta de conquistas, por terem construído uma forte representação nas eleições. Mas a burguesia também se adapta aos embates, transformando o liberalismo. Em 1848, a indústria bélica e a estrutura urbana se alteram para inviabilizar a luta de barricadas, comum na Paris de vielas propícias à emboscadas populares. As grandes avenidas surgidas das reformas burguesas de Paris, tornaram-se perfeitas para tanques e canhões de longo alcance que eliminaram a hipótese das barricadas proletárias.
Marx acreditava que as crises sucessivas acabariam criando as condições objetivas para superação do capitalismo. Keynes, então, inventa os mecanismos liberais para, se não evitar crises, encontrar condições para superá-las, por meio de intervenção de estado. Foi o que tornou a Europa um exemplo de estado de bem estar social, para enfrentar o comunismo que avançava a partir da União Soviética.
Hayek foi o economista radicalmente contra a intervenção do estado na economia. Agraciado em 1974 com o Nobel, seu modelo foi implementado no momento em que a crise será gerenciada sem intervenção do estado. Saviani retoma os elementos da crise que deixou impactos profundos na atualidade, em particular na gestão da atual crise financeira internacional, em que a intervenção do estado garante a salvação dos bancos para evitar o colapso financeiro.
Como educador célebre que é, fundador da Pedagogia Histórico-Crítica, Saviani não poderia deixar de prescrever a educação escolar, como fazia Gramsci, como o meio mais adequado para a apropriação dos trabalhadores das conquistas do conhecimento e o desenvolvimento da consciência crítica.
A mais-valia é resultado da produção do proletariado e configura um trabalho não pago. Por isso, as ações de massa devem ser orientadas o máximo possível para a consciência de pertencimento à classe. “Nas eleições, mesmo os partidos progressistas dizem que os empresários são o setor produtivo, geram empregos e renda”, ironiza ele, revelando o modo como a ideologia se naturaliza entre os trabalhadores.
“O capitalismo, apesar de todas as suas misérias, engendra as condições para a transformação do sistema”, diz Saviani. Analisando com perspicácia o funcionamento do sistema, como fez Marx, a luta proletária deveria buscar a abolição do sistema de trabalho assalariado, e não lutar por “salário justo, por jornada justa”. “Os movimentos sociais são conservadores, pois buscam assegurar espaço (direitos) nessa sociedade capitalista, e não a ruptura com ela”.
Voltando a sua área de atuação, Saviani mostra que o Movimento Todos Pela Educação, por exemplo, que até setores de esquerda embarcam em sua propaganda, é um movimento social dos empresários. São fundações, empresas e bancos que interferem claramente nas políticas educacionais.
Por outro lado, ele avalia que o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), “constitui um germe da sociedade socialista, animando para novas conquistas”, ao arregimentar grande número de famílias para ocupações. Segundo ele, o MST era um movimento conservador de perdedores de sua terra que voltavam para recuperá-la. “Hoje é o movimento social que mais avançou e mantém a perspectiva socialista”, opina o filósofo, ao citar a criação da escola de formação Florestan Fernandes, como um exemplo da consolidação dessa perspectiva socialista.
Após os comentários da plateia, Saviani deu continuidade à conferência avançando no tema. Ele aproveita a questão sobre o pós-modernismo, para defini-lo como um “grande aparato ideológico”, na defesa de interesses que levam à distorção sobre a noção de verdade/realidade.
Resgatando o realismo ingênuo do filósofo Santo Agostinho, em que o critério de verdade era a evidência objetiva que se impõe ao sujeito, ele avança para o idealismo kantiano, em que o racionalismo define verdade como conhecimento a partir das ideias inatas. Em seguida vem o empirismo de Hume, em que o conhecimento é a experiência vivida, e finalmente a autocrítica de Kant ao descobrir a impossibilidade da metafísica com sua crítica da razão pura. Não  há instância de decisibilidade na razão pura: Deus existe? O homem é livre? A alma é imortal? Eram estas as grandes questões da filosofia. É quando se define que as únicas ciências são a Matemática, que cria conceitos e a Física, que os descreve.
A filosofia moderna elabora então a síntese em que o real e o ideal são dois elementos que se articulam. Hegel estabelece a contradição como categoria lógica, que era expulsa até então. Marx, então, inaugura a filosofia contemporânea com o realismo crítico. “Porque a realidade existe independente do pensamento, o que é uma crítica da realidade como fruto do pensamento”, demonstra Saviani.
Na pós-modernidade, estaríamos vivendo numa sociedade que levanta problemas que não é capaz de resolver. “Vem a concepção de irracionalismo, que já havia sido levantada no século XIX”, diz Saviani. O filósofo então, passa a demonstrar que em períodos progressistas, tende a predominar a indução, enquanto em períodos de fecho de uma forma social tende a prevalecer o dedutivismo. A indução não traz a verdade, mas gera conhecimento, enquanto a dedução garante a verdade, mas não faz avançar o conhecimento, porque, segundo Kant, são juízos analíticos e não sintéticos.
Ele cita uma dedução lógica básica, de que todo homem é racional, portanto, Pedro sendo homem, é racional. A dedução é justificadora da premissa, não acrescenta nada à premissa. Saviani mostra como a burguesia, sendo o novo na sociedade, derrotou o velho e o novíssimo (descrito aqui como sendo a Comuna de Paris). Isso, porque a burguesia permite avanços, mas provoca retrocessos: como quando tira a educação das mãos de jesuítas para evitar um conservadorismo de cunho religioso na formação da sociedade, mas depois devolve, para conter o avanço das lutas proletárias, numa aliança entre igreja e burguesia.
Com isso, entre 1780 e 1840, ocorre a consolidação da burguesia industrial. A partir daí, ela não tem mais argumentos para justificar seus avanços e passa a se apoiar em argumentos irracionais. “Descobrir o novo é superar a ordem, então o objetivo da educação passa a ser justificar a ordem”.
Saviani afirma que a educação é própria do homem, e nasce com seu surgimento. Ele também diz que o homem é um ser histórico, portanto não incorpora avanços na genética. “As crianças selvagens comprovam isso, ao se tornarem completamente animalescas ao perderem o contato com a educação humana”.
Especialista na história da educação, Saviani aproveita a noção de que a educação coincidia com o processo de trabalho, até um certo ponto, prescindindo da alfabetização, por exemplo. A educação só se generaliza, efetivamente, como necessidade no capitalismo, já que a escrita incorporada precisa da alfabetização.
“O capitalismo generaliza a educação, mas tem uma relação complicada com a escola. O saber também é um meio produtivo, portanto o trabalhador deixa de ser proprietário apenas da sua força de trabalho, para ser dono de um meio produtivo.”
É por esse motivo, por exemplo, que Adam Smith defende a educação em “doses homeopáticas”, ao admitir apenas o conhecimento necessário para a produção capitalista. Educar é mais que instruir. Instruir é apenas apreender conceitos. “Só instruir é mutilar o educando”, cita Saviani. Mas isto precisa ser compreendido dialeticamente, pois educar precisa envolver instrução. “A educação de qualidade é uma luta contra toda essa facilitação que predomina, inclusive na Europa, após o Protocolo de Bolonha, que visa reduzir a educação ao padrão americano. Vivemos  esse momento de descenso”, lamentou.
Saviani encerra sua conferência exemplificando essa dialética entre instrução e educação, com o simples aprendizado do latim, que se revelava uma forma de se apropriar de um conhecimento sobre “como nasce, floresce e fenece uma civilização”.