Sobre todas
às coisas... coisa nenhuma esteve...Serve a agonia da inércia? Serve o
conformismo secular das massas? Há músculos necrosados, há tumores exalando
pus, há neurônios em curto-circuito. Há mentiras parecendo verdades. Vejo entre
meu adeus e minha última palavra que nem sequer escrevi, as agruras do viver:
pode um corpo prescindir dos desejos? Envelhecer? Dizer nada parece ser do tamanho da exatidão
quando muitos acham que falam alguma coisa. Não temo a solidão e seus
silêncios. Tenho ouvido muitos sons sem
precisão e sem alvo, quando palavras necessitam do rigor da matemática para
serem ditas. E esta pressão no peito, de coisas inacabadas, inflamam meus
passos. De olhos fechados, saciado das paredes, desconjuro as imagens que
tijolei durante esse viver. Vejo fotos antigas e me pergunto aonde estão meus
nervos. Vinde a mim! Cospe a secura da
tristeza. Vinde a mim! Vomita o silêncio
do meu baú de ossos, obrigado a se calar por que nunca é hora.É justo morrerem
filhos antes dos país? Tenho as dores da
passividade exigidas pelo bom tom. Já
apanhamos muito por isso. Mas de pintura
entendo de que nada é perpétuo. Cada
pincelada deveria ser como um soco no
estômago. Foi crescendo as dores como uma ferida em forma de céu até encher de
cataratas as lágrimas de meu inferno. Vejo pouco. Quero ver muito? Quando
encontro respostas, desatino um suspiro de morte, as saídas estão
contingenciadas por acordos realizados por pequenos burgueses que acham que mandam. Mas
mandam por conciliações vis. Aí chega-me a velhice corcundeando o tempo como um corvo poeniano, se instalando pela boca. E alguém
nenhum para ouvir esse meu lamento de carne e nervos; e nem eu mesmo ouvindo a
surdez do meu ouvir estourando minha
pele de linhas e agulhas. Vozes perdidas por que não ecoam. Quão cedo dominam-me às coisas que nem sei
dizer. Ando escapando dos embates. Nas ruas quentes fecundam amores arrancados com
dentes de solidão, por trinta moedas, meninas fazem chupetas em senhores de
família quatrocentonas e fundadoras. Outras, nem cobram, vulgarizadas pelo
momentâneo e pelas bebidas em bares da vida. Sexo casual? Mas os fiapos tecem, num embalo de vidas, a
presença ausente do que sou. Quero ser mais e não há mais tempo. Sou nada. Grita meu grito sufocado. Sou nada.
Desespera o adeus que ouço do não feito. Coisa nenhuma esteve em minhas mãos
por delicadeza ou piedade, foram forjadas em dias e noites tormentosas. Passaram-se assim... de um sopro de moda ou de
uma corneta extinta, porém, transeunte na memória que fecha a luz. Houve quem
me dissesse da vida ela mesma em seu grunhir de
espantos e sonhos; houve quem me tirasse do sono pra me roubar os
acordes de correntes, forçando enfeites em meu
pescoço que, eram braços, pernas,
línguas... de tudo que era não eu. Perdi filha e lutas. Olho para os que me
restam e choro: há trevas pela frente. Temo.
Estou prisioneiro de um tempo que não é meu. Mas deuses e demônios, colhendo
desejos em imensas colheres,
transformaram luzes em trevas, teceram fios de ovos, prendendo neles as
alegrias e fizeram do sabor um beijo
anônimo e desejoso, toda a angústia dos viveres. Todas às coisas foram juntando
fatos que formaram atos, que nos
curvaram, perderam as cabeças quando esqueceram o passado... e foi oferecendo, no
madrugar, o gosto do calar, do se salvar as aparências nas mudanças que não
mudam. E caímos no retrocesso. Esteve as
coisas no lugar que avistou jamais minha alma sem sentinela. Custa-me, à
frente, repousar. Tranco a palavra. Tangencio o calor da dor. É preciso abrir as coisas. É preciso
chutar as portas nessa mesmice. Preciso explodir mas parece que vai chover amanhã.


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