quarta-feira, 13 de abril de 2016

SOBRE TODAS AS COISAS / Marla/Marcos

Sobre todas às coisas... coisa nenhuma esteve...Serve a agonia da inércia? Serve o conformismo secular das massas? Há músculos necrosados, há tumores exalando pus, há neurônios em curto-circuito. Há mentiras parecendo verdades. Vejo entre meu adeus e minha última palavra que nem sequer escrevi, as agruras do viver: pode um corpo prescindir dos desejos? Envelhecer?  Dizer nada parece ser do tamanho da exatidão quando muitos acham que falam alguma coisa. Não temo a solidão e seus silêncios.  Tenho ouvido muitos sons sem precisão e sem alvo, quando palavras necessitam do rigor da matemática para serem ditas.  E esta pressão  no peito, de coisas inacabadas, inflamam meus passos. De olhos fechados, saciado das paredes, desconjuro as imagens que tijolei durante esse viver. Vejo fotos antigas e me pergunto aonde estão meus nervos.  Vinde a mim! Cospe a secura da tristeza. Vinde a mim!  Vomita o silêncio do meu baú de ossos, obrigado a se calar por que nunca é hora.É justo morrerem filhos antes dos país?  Tenho as dores da passividade exigidas pelo bom tom.  Já apanhamos muito por isso.  Mas de pintura entendo de que nada é  perpétuo. Cada pincelada deveria ser  como um soco no estômago. Foi crescendo as dores como uma ferida em forma de céu até encher de cataratas as lágrimas de meu inferno. Vejo pouco. Quero ver muito? Quando encontro respostas, desatino um suspiro de morte, as saídas estão contingenciadas por acordos realizados por  pequenos burgueses que acham que mandam. Mas mandam por conciliações vis. Aí chega-me a velhice corcundeando  o tempo como um corvo  poeniano, se instalando pela boca. E alguém nenhum para ouvir esse meu lamento de carne e nervos; e nem eu mesmo ouvindo a surdez do meu ouvir estourando  minha pele de linhas e agulhas. Vozes perdidas por que não ecoam.  Quão cedo dominam-me às coisas que nem sei dizer. Ando escapando dos embates. Nas ruas quentes fecundam amores arrancados com dentes de solidão, por trinta moedas, meninas fazem chupetas em senhores de família quatrocentonas e fundadoras. Outras, nem cobram, vulgarizadas pelo momentâneo e pelas bebidas em bares da vida. Sexo casual?  Mas os fiapos tecem, num embalo de vidas, a presença ausente do que sou. Quero ser mais e não há mais tempo.  Sou nada. Grita meu grito sufocado. Sou nada. Desespera o adeus que ouço do não feito. Coisa nenhuma esteve em minhas mãos por delicadeza ou piedade, foram forjadas em dias e noites tormentosas.  Passaram-se assim... de um sopro de moda ou de uma corneta extinta, porém, transeunte na memória que fecha a luz. Houve quem me dissesse da vida ela mesma em seu grunhir de  espantos e sonhos; houve quem me tirasse do sono pra me roubar os acordes de correntes, forçando enfeites em meu  pescoço que, eram braços,  pernas, línguas... de tudo que era não eu. Perdi filha e lutas. Olho para os que me restam e choro:  há trevas pela frente. Temo. Estou prisioneiro de um tempo que não é meu. Mas deuses e demônios, colhendo desejos em imensas  colheres, transformaram luzes em trevas, teceram fios de ovos, prendendo neles as alegrias e fizeram  do sabor um beijo anônimo e desejoso, toda a angústia dos viveres. Todas às coisas foram juntando fatos que formaram atos,  que nos curvaram, perderam as cabeças quando  esqueceram o passado... e foi oferecendo, no madrugar, o gosto do calar, do se salvar as aparências nas mudanças que não mudam. E caímos no retrocesso. Esteve  as coisas no lugar que avistou jamais minha alma sem sentinela. Custa-me, à frente, repousar. Tranco a palavra. Tangencio o calor  da dor. É preciso abrir as coisas. É preciso chutar as portas nessa mesmice. Preciso explodir  mas  parece que vai chover amanhã.  

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